Demasiadas vezes me vi como o salvador, o mártir. Só recentemente me consegui aperceber disso. Sempre me vi como o principal responsável, por tudo de bom como tudo de mau. O sofredor que consegue salvar o mundo no final do dia, em contraste com o quotidiano onde me via e sentia abandonado e posto de parte. O mundo já deu muitas voltas desse dia, mas mesmo assim, continuo a fantasiar por uma forma de livrar a minha família de dívidas, colocar os meus amigos numa situação financeira segura e agradável, assim como conseguir trazer mais rendimento para casa, sem me sentir culpado por ser a Marta que chega a todo o lado. Soube recentemente que tenho um karma com o dinheiro. Numa vida passada... perdão, em várias vidas passadas, tive em posições que me garantiram dinheiro e poder e eu era generoso com as pessoas à minha volta e que me procuravam, mas sempre fui esperando algo em troca, até que não me davam aquilo que esperavam e eu acabei por não dar nada a ninguém, por ficar com tudo para mim. Não foi numa, nem foram duas vidas. Foram bastantes. Portanto, é natural que sinta esta vontade de querer ajudar todos, é natural que deseje ter o dinheiro para o fazer, é natural que também tenha todas estas dificuldades financeiras. Sempre pensei que os problemas financeiros tinham origem ou na minha mãe ou no meu pai. Quando a minha mãe saiu de casa, as coisas na casa dos meus avós melhoraram. Quando o meu irmão saiu de casa, a sua condição financeira também melhorou. Quando eu saí de casa... nada mudou, porque sou eu o responsável. Não o digo de forma fatalista ou dramática ou sequer de sentir injustiça. Digo-o aceitando-o. Só há pouco tempo também é que me apercebi que aquilo que deu... sempre esperei algo de volta, mais que não seja ter uma razão para não estar melhor na vida. Ter alguém a quem culpar, mesmo não querendo culpar ninguém. Ajudei quem tinha de ajudar e não fui pago de volta. Não quero ser, é mais que justo que não seja, por muito que isso me custo interiormente, por muito que essa seja uma batalha difícil de travar. Mas tal como sempre, tal como tudo, assim que a luz é apontada para algo, assim que as trevas se revelam, elas são compreendidas, elas deixam de nos dominar. Quero que os meus pais saiam dos problemas em que estão enfiados, isso é o mais importante, não que eles me vejam como o seu salvador. Não preciso disso, eu sei que eles me amam de qualquer forma, assim como todos os meus amigos que quero ajudar. Não preciso de comprar o seu afecto, eles amam-me de qualquer maneira. Só quero que todos nós estejamos bem e eu sei que se todos nós estivermos bem, eu também estarei.
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