A vida prega-nos partidas. Há muito tempo que ando para vir escrever as novidades, mas ultimamente começo sempre pelo facto de que a única coisa que tinha para dizer era que era uma obrigação vir cá escrever. A cada dia, a cada momento em que me lembrava dizia para mim mesmo:"tenho que ir escrever no meu diário para dizer como estou a fazer as coisas por esforço, como estou a deixar esses dias para trás." Com a entrada da Marta na minha vida, tudo o resto ficou para trás, a dor do passado, a questão com a Catarina, a questão profissional, de dinheiro. Mostrou-me claramente que os problemas que eu identificava na minha vida eram apenas questões secundárias, que aquilo que eu verdadeiramente procurava na minha vida era mesmo a Marta. Nem era alguém como ela. Era ela. Para este momento da minha vida, ou seja, tive que passar por tudo isto sozinho, para dar valor à companhia dela. E dou valor. O curso da leitura de aura correu excelente, já estamos na recta final e estou orgulhoso do nosso percurso. Sei que ainda temos muito a percorrer mas sinceramente, nunca pensei em chegar aqui.
Mas, tudo isto... tudo isto são trivialidades.
Hoje a nossa coelha morreu. A Marta veio ter comigo à cama, a chorar e inicialmente nem percebi o que ela estava a dizer. Depois quando percebi, não quis acreditar. Mais uma vez, perante a perda, fiquei dormente. Confortei a Marta, mas nem senti nada. Nem o vazio de a ver esticada, com sangue, de olhos abertos. Nem a rigidez do seu corpo. Os meus pais vinham cá hoje, ajudar aqui com umas obras em casa e eu estava dormente. Só depois da D. me ligar, a perguntar algo por causa de um workshop que ela está a organizar para mim, e eu só dizia que não conseguia, sem conseguir explicar que não tinha forças para pensar naquilo agora. Com vontade de gritar. Mas eu não disse nada. Estava dormente. Quando me deitei na cama do meu quarto, enquanto os meus pais estavam na sala na tarefa que estavam a fazer, sem quase me dar conta, só pensei em como gostava de desaparecer. Não como antes, não de desaparecer, morrer, mas desaparecer para longe, para estar sozinho, para não estar com outras pessoas. Sei mais que isso, sei que a paz que precisamos está em nós e o dia foi suportado razoavelmente bem, sem grandes percalços, embora tenha sentido um cansaço enorme. Acho que grande parte desse cansaço desapareceu quando finalmente chorei nos braços da Marta. Se a estou a ensinar a desapegar do desaparecimento dos animais, ela está a ajudar-me, a ensinar-me a lidar com a perda. Algo que sempre me recusei a fazer. Por vezes aquilo que recusamos no presente, aparece-nos de forma que não conseguimos recusar no futuro. Apesar da dor da perda, sinto-me abençoado por esta aprendizagem e ainda mais abençoado por ter a Marta do meu lado.
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