Parece que passou uma vida desde a última vez que falei contigo. É estranho… falar assim, como se fosses uma pessoa, mas é o que me parece adequado. Mais do que estar a escrever palavras num diário, sinto como se estivesse a falar com o passado. Com o meu passado. Ou com o meu Eu passado. Não é um passado muito alegre e não é com ânimo leve que o visito… através das tuas páginas. De qualquer forma, disseram-me que seria positivo eu pegar naquilo que fiz, naquilo que me aconteceu e aceitar. Por aceitar entende-se que não seja algo que se queira visitar compulsivamente ou, em alternativa, que se queira fugir a sete pés.
Já passou tanto tempo…
Sempre detestei ser o centro das atenções – esta é uma frase que já repeti vezes sem conta, mas que curiosamente, hoje em dia, nem por isso – mas o que é certo é que naquela altura, por tudo aquilo que… tu sabes, acabei por me colocar nesse mesmo lugar. E como quis fugir. Fugir da fuga. Reparei que era isso que fiz desde que me recordo. Fugir. Fugir das pessoas por não conseguir falar com elas, por não conseguir lidar com a sua rejeição. Raios, eu nem conseguia lidar com a sua aceitação. Fugir. Fugir, fugir, fugir. Cheguei à conclusão de que esse sentimento de querer fugir esteve sempre presente porque era de mim quem eu queria fugir. Fugi de tal forma que não me responsabilizar, colocar isso nas mãos de… outro.
Não quero falar disto, já passei esta fase. É passado. Porque é que tenho de chafurdar no passado?
Outra coisa que não suporto é eu fazer as perguntas para eu próprio responder. Tal não é a divisão no meu ser, precisar de dirigir-me àquela pessoa mais sábia que apesar de estar dentro de mim, não está bem ao meu alcance. Eu sei porque é que tenho que chafurdar no passado. Porque apesar de tudo, apesar das imensas e enormes voltas que o mundo deu desde 2008, esse meu passado continua a olhar para mim. Fechado num cofre, numa caverna escondida, amordaçado com correntes, tapado com cobertores, enterrado em areia, debaixo de água, noutro país, noutro continente, noutro hemisfério… eu sei, eu sei que ele está a olhar para mim, observar-me. A aguardar pacientemente para a melhor altura, para me voltar a atacar. Um filósofo qualquer disse a certa altura que era melhor não olhar para o abismo porque o abismo poderia olhar para nós. Estive a fazer de conta que não, mas foi preciso voltar a pegar nestas páginas, sentir o seu cheiro, ver o seu tom amarelado, para ver que tenho andado a fugir. Mais uma vez.
A fuga pára aqui. Hoje começo a construir o meu futuro.
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