Estive com isto na cabeça o dia todo. Levei o diário para o trabalho para nos tempos mortos tentar perceber o passado. O motivo da minha fuga. Percebi o porquê de querer fugir. Eu, inconscientemente ou não, devia saber. Há muita coisa que quero dizer agora, uma tentativa de me explicar, embora não tenha ninguém a quem me explicar que não eu próprio. Tentar encontrar um início mas o que tenho, tudo o que tenho é um grande emaranhado.
Voltar a ler aquilo, apesar de sentir que não foi escrito por mim, fez-me voltar a um sítio do qual me senti preso durante toda a minha vida. E fez-me lembrar o pós... [enfrentar o passado, enfrentar o passado, parar de fugir]... suicídio. Os olhares de todos. Os comentários nas costas. A preocupação constante - onde estás, para onde vais, o que é que é isso que tens na mão? - que era apenas mais uma prisão, mas esta foi a primeira vez que a enfrentei sozinho. Foi difícil, tão difícil. Assim como os próximos anos (já passaram mesmo 6 anos). Agora sei o que é que o alcoólico ou o toxicodependente sente quando sai da reabilitação e tenta continuar com a sua vida. O enorme peso que carrega nas costas, sobre os ombros, sobre todo o seu corpo, que o obriga a curvar-se.
O tempo cura tudo e hoje sei que isto é uma sombra do passado, não sei se foi pelos melhores motivos. Afinal, uma fuga não é bem o mesmo que uma aprendizagem. Como disse, os primeiros tempos foram complicados, mas o que mudou foi a determinação que encontrei dentro de mim. A esquizofrenia que não era esquizofrenia, seja o que for que tive, nesse momento desapareceu e uniu-se como um só. Eu uni-me como um só. E renasci. Parto sangrento e doloroso onde metades de mim foram progenitores para aquele que sou eu completo. Mas apesar disso... fugi. Fugi deste passado, com medo. Costuma-se dizer que quem não deve não teme. Talvez eu devesse tanto a mim próprio que achei que me iria obrigar a pagar.
Depois disso cai mais vezes. Tive relacionamentos (todos falharam) fiz coisas que julguei não ser possíveis fazer e sobretudo encontrei uma paz de espírito que nunca julguei ser capaz de encontrar antes. E caí. E levantei-me. E caí. E levantei-me. A cada queda, o tempo que fiquei embaixo foi menor, no entanto, isso não impediu que tivesse quedas bastante violentas, de forma inesperada. Quer dizer, para mim agora não seria tão inesperada quanto isso. Até notei um padrão nelas. Basicamente foi sempre que disse - esta pessoa vai-me ser feliz. Só preciso disto para ser feliz.
Continuo sem namorada, mas as cicatrizes estão saradas. Ou pelo menos assim as sinto, embora admita a possibilidade de mais uma vez me estar a enganar. Considerando a pessoa em questão, não seria de estranhar. Estou em paz com o meu passado amoroso e nem o facto da Susana se ter casado me faz diferença. Nem o facto dela não fazer parte da minha vida. Na verdade... sinto aliviado que assim seja e sobretudo, sinto-me feliz por ela. Um chavão terrível mas verdadeiro.
Também atingi paz com o meu trabalho. Soube anos mais tarde que os meus colegas e chefia têm uma confiança no meu trabalho totalmente inesperada - a parte do pânico e da vontade de fugir dos primeiros dias de trabalho estão bem frescas na minha memória, essas não desapareceram - mas ao que parece, eles sempre confiaram no meu trabalho, apesar de todos os erros que me culpabilizei, eles sempre me desculparam. Típico, ser surpresa os outros gostarem de mim e perdoarem-me primeiro do que eu próprio.
Mesmo assim... águas do passado. Não me custou tanto quanto julgava nadar nelas, mas penso que para um dia já foi bastante.
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