Não sei se é coincidência ou não - e cada vez acredito menos em coincidências - mas esta (re)visita ao passado teve o efeito totalmente contrário ao que esperava. Receava de que fosse abrir a caixa de Pandora e que dela saíssem todos os demónios que já tinha esquecido que existiam. A caixa foi aberta e os demónios saíram mas não me fizeram mal, não me contagiaram, não me infectaram. Realmente estes seis anos mudaram-me muito e este pequeno teste - o qual me submeti sem pensar muito que o estava a fazer - foi passado com distinção. O passado finalmente perdeu sobre o alcance sobre mim e mais do que o ter perdoado, perdoei-me a mim mesmo. Pelo mal que me acusava de ter feito contra os outros mas principalmente o mal que fiz a mim mesmo, demasiadas e repetidas vezes. Hoje, com as pequenas coisas que aconteceram e com tudo o que está para trás, tive essa confirmação.
É bastante simples. Se durante o dia todo não nos lembrarmos de pensar no passado e ficarmos tristes, e partindo do principio que não estamos com amnésia selectiva e que se é sincero connosco próprios, então é porque estamos efectivamente a viver no presente. Para a pessoa que sofria pelo passado que ampliava as suas dores e que sofria pelo futuro que não tinha ainda acontecido, este é um acontecimento dos diabos. Há muita coisa que tenho a certeza de que teve influência nisso, como disse atrás, não acredito em coincidências. E a maior, o ponto de viragem, foi a primeira vez que me fizeram reiki, depois de uma das minhas quedas - mais um tombo valente - e que me levou a querer ser iniciado. Sempre senti curiosidade pelo reiki, mas nunca tinha tido o impulso para que me fizessem e muito menos para ser iniciado. Foi preciso mais um tombo para decidir-me a fazer.
Os tombos que damos são definitivamente um alerta para mudarmos algo na nossa forma de ser ou agir embora sejam sempre encarados como um ataque ou ofensa pessoal, como se fossemos vítima de outras pessoas, de situações ou de nós próprios. Como se não tivéssemos nenhuma escolha, quando na maior parte das vezes, apenas precisamos de olhar na direcção correcta e a direcção correcta é para dentro. A resposta está sempre dentro de nós. Foi esse o início da mudança. Olhar para dentro, algo que o reiki que me ajudou imenso. Não foi algo que consegui fazer logo, aliás, não posso dizer que "veja" algo actualmente - há quem veja luzes, quem tenha mensagens, quem tenha respostas às perguntas que faz - mas foi a paz. Aquela paz, nova, fresca, pelo menos para mim.
Durante os 21 dias de limpeza que fazem parte do processo de iniciação, senti uma paz verdadeiramente nova e genuína. Sem culpas, sem desejo mas eternamente presente. Aí começou a mudança para aquilo que sou hoje, mas sem todas as quedas, não teria chegado aqui e acho que foi por essa razão que não fui contagiado por todos aqueles demónios que saíram da caixa. Eles fazem parte de mim, não me podem fazer mal. Eles fazem parte do meu passado, o meu passado não me pode fazer mal. Estou grato por ele. Não vou ser arrogante e dizer que perdoei a tudo e a todos e sobretudo que perdoei-me por completo a mim próprio, mas sinto, sem dúvida, que iniciei esse caminho do perdão.
Por outro lado, aquilo que ler o diário fez foi abençoar o presente e abençoar todo o caminho percorrido até aqui. Em vez de me contagiar com negatividade, atraiu a positividade. Hoje, graças a essa viragem, a essa descoberta de cura, tive conversas interessantes, com pessoas que mal conheço, sobre o reiki. Pessoas que se for a tentar rastrear a forma como entraram na minha vida, poderia dizer que foi de forma totalmente casual e aleatória, caótica.
Acho que é a definição perfeita do Caos. Uma ordem que aparentemente não tem sentido para quem está perto demais dele para o perceber, mas que com uma certa distância se consegue perceber que o que chamamos do caos do acaso, é apenas a ordem natural das coisas conforme aquilo que precisamos e atraímos. E de encontrão em encontrão somos atraídos uns para os outros até que, num golpe de perspectiva, conseguimos perceber que são encontrões com sentido, porque cada pessoa que vem até nós tem algo para nós.
E nós para elas.
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