De manhã a Marta não tinha vontade nenhuma para ir para o curso e eu estava conformado por ser um domingo, mais um, em que não posso ficar na ronha. Claro que acabo por nunca ficar na ronha, mas pronto, de qualquer forma tenho saudades desse sentimento de pseudo liberdade. De qualquer forma lá fomos e se a Marta me surpreendeu ontem com a forma como encarou o curso, hoje fiquei totalmente orgulhoso. Quer dizer, poderia ter ficado também comigo, mas eu tive um pequeno problema, além de ter sentido um desgaste enorme durante a tarde, uma das razões a que se deveu esse cansaço foi porque a questão do meu pai veio à baila quando estavamos a ver os chakras de cada um e não sei porquê ou em qual chakra foi, a minha relação de infância com o meu pai surgiu, onde eu falei de que grande parte das minhas inseguranças que tive que desfazer e enfrentar em adulto - tarefa que ainda não acabou - teve como responsável uma fase da minha vida em que me senti encurralado e ao mesmo tempo abandonado pelo meu pai. A Catarina interrompeu-me a certo momento e disse que a minha avó estava ao meu lado a pedir para à Catarina para me dizer a mim que tinha de falar com ele. Eu sei que sim, mas não é algo que queira fazer. Não é algo que planeie fazer. Nos momentos seguintes remite-me ao silêncio, algo que tanto a Marta como a Catarina repararam. Quando ambas me perguntaram se estava bem, a minha vontade era deixar tudo para trás e fugir, tal como tantas vezes tinha sentido no passado, tal como me tinha sentido nessas vezes quando estava encurralado. Sou uma pessoa diferente, mas seria errado pensar que sou mais forte ou mais sábio. Talvez até arrogante pensar que sou mais eu, já que quanto mais crianças somos, mais próximos estamos do nosso verdadeiro eu. Antes da nossa criança interior ser estilhaçada. É assim como vejo esses tempos, os tempos em que a minha criança interior foi estilhaçada e daí parte dos meus problemas de auto-estima. Estou mais em paz com esse passado mas sei que ainda estou longe do ideal e sei que eventualmente vou ter de falar com o meu pai, eventualmente vou ter que perdoar definitivamente ao meu pai e sobretudo a mim próprio por me considerar ter sido fraco muitas vezes e dar-lhe razão. Um dia, mas não para agora. Não para agora.
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