terça-feira, 9 de setembro de 2014

09-09-2014

Não sei o que tenho. Estes últimos dias depois da coelha morrer sinto-me a definhar também. Tal como o nosso coelho. Ele que era bastante activo, agora passa os dias encostado a um canto, apenas preocupado em mudar de posição e em comer. Mas a sua letargia acho que me está a contagiar. Não vou com isto dizer que a culpa é dele, tal como antes apontei o dedo a culpados à minha volta, uns visíveis, outros invisíveis. Não quero repetir os erros do passado nem usar este diário como usei antes, como uma forma de expelir negatividades, pensando que as estou a exorcisar quando no fundo o que estou a fazer é ajudar a que elas se prolonguem, que a sua vida seja celebrada. No entanto não consigo deixar de evitar de ser sincero e dizer que não me sinto bem. Sinto-me tal como o coelho, apático, sem energia. Esta manhã fiz reiki, já não o fazia há duas semanas, e estava na esperança de que isso se alterasse, mas no fundo eu sabia de que o problema não é a falta de energia. É uma consequência e não uma causa. O problema é eu ter algo a sugar-me a energia. Seja tristeza pela morte da coelha, seja apatia e resistência em relação à vida em geral. É incrível não é? Repórter, escritor, terapeuta de reiki e massagem ayurvédica e prestes a ser de leitura de aura e mesmo assim ainda me deixo contagiar pela apatia, não querer fazer nada do que faço, não querer fazer nada de nada, apenas ficar encostado no meu canto. Como o coelho. Ficar encostado num canto e fechar os olhos, não querendo saber se é dia ou noite, se há vida lá fora ou não. Não interessa. E eu sei que isto não é saudável, que isto não é meu, não pode ser meu. No entanto também sei que tudo é cíclico e que não devo ter resistências, apenas consciência do sítio onde estou. E é nisso que eu estou a falhar redondamente, principalmente por não querer saber. Talvez tenha demasiado tempo livre, mas supostamente é disso que consiste as férias, tempo livre para descansar e fazer coisas que normalmente não se faz. Só queria congelar o tempo, porque apesar de tudo, não me apetece voltar ao trabalho. Não me apetece sair de casa. Apenas hibernar até um novo dia para o qual não me apetece esperar, apenas dormir.

Eu sou superior a isto, eu vou vencer isto. Talvez não hoje ou amanhã, mas não me vou deixar ir abaixo por algo que nem sei o que é.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

05-09-2014

A vida prega-nos partidas. Há muito tempo que ando para vir escrever as novidades, mas ultimamente começo sempre pelo facto de que a única coisa que tinha para dizer era que era uma obrigação vir cá escrever. A cada dia, a cada momento em que me lembrava dizia para mim mesmo:"tenho que ir escrever no meu diário para dizer como estou a fazer as coisas por esforço, como estou a deixar esses dias para trás." Com a entrada da Marta na minha vida, tudo o resto ficou para trás, a dor do passado, a questão com a Catarina, a questão profissional, de dinheiro. Mostrou-me claramente que os problemas que eu identificava na minha vida eram apenas questões secundárias, que aquilo que eu verdadeiramente procurava na minha vida era mesmo a Marta. Nem era alguém como ela. Era ela. Para este momento da minha vida, ou seja, tive que passar por tudo isto sozinho, para dar valor à companhia dela. E dou valor. O curso da leitura de aura correu excelente, já estamos na recta final e estou orgulhoso do nosso percurso. Sei que ainda temos muito a percorrer mas sinceramente, nunca pensei em chegar aqui. 

Mas, tudo isto... tudo isto são trivialidades.

Hoje a nossa coelha morreu. A Marta veio ter comigo à cama, a chorar e inicialmente nem percebi o que ela estava a dizer. Depois quando percebi, não quis acreditar. Mais uma vez, perante a perda, fiquei dormente. Confortei a Marta, mas nem senti nada. Nem o vazio de a ver esticada, com sangue, de olhos abertos. Nem a rigidez do seu corpo. Os meus pais vinham cá hoje, ajudar aqui com umas obras em casa e eu estava dormente. Só depois da D. me ligar, a perguntar algo por causa de um workshop que ela está a organizar para mim, e eu só dizia que não conseguia, sem conseguir explicar que não tinha forças para pensar naquilo agora. Com vontade de gritar. Mas eu não disse nada. Estava dormente. Quando me deitei na cama do meu quarto, enquanto os meus pais estavam na sala na tarefa que estavam a fazer, sem quase me dar conta, só pensei em como gostava de desaparecer. Não como antes, não de desaparecer, morrer, mas desaparecer para longe, para estar sozinho, para não estar com outras pessoas. Sei mais que isso, sei que a paz que precisamos está em nós e o dia foi suportado razoavelmente bem, sem grandes percalços, embora tenha sentido um cansaço enorme. Acho que grande parte desse cansaço desapareceu quando finalmente chorei nos braços da Marta. Se a estou a ensinar a desapegar do desaparecimento dos animais, ela está a ajudar-me, a ensinar-me a lidar com a perda. Algo que sempre me recusei a fazer. Por vezes aquilo que recusamos no presente, aparece-nos de forma que não conseguimos recusar no futuro. Apesar da dor da perda, sinto-me abençoado por esta aprendizagem e ainda mais abençoado por ter a Marta do meu lado.


domingo, 17 de agosto de 2014

12-08-2014

Sentimento estranho o de hoje. A minha mãe fez hoje anos e sempre foi um momento em que passámos juntos. Foi o primeiro aniversário desde que saí de casa e foi uma sensação estranha. Sou um homem de hábitos e de resistência à mudança desses mesmos hábitos e a cada mudança, surge um período de habituação que é sempre algo longo e camuflado. Nunca sei quando acaba mas quando penso que já acabou é porque ainda não começou sequer. Acho que foi a primeira vez em que me bateu não viver com os meus pais. Compramos-lhe uma prenda, um tablet.A ideia era ela ficar feliz, embora soubesse que pudesse haver alguma resistência da parte dela - infelizmente existe a tendência em colocar-se no final da fila no que diz respeito a receber miminhos, uma tendência irritável que herdei e perante a qual ainda me debato entretanto. Ela gostou da prenda e até foi uma reacção muito positivo. Acho que as saudades e a felicidade de estar presente era tão grande que até lhe poderia oferecer um caroço de maçã embrulhado num papel que ela gostaria na mesma. Infelizmente o tablet estava avariado e eu fiquei triste. Sei que não foi por acaso que o tablet ficou avariado. Simbolizava a minha intenção de a mimar, mas foi uma forma da vida me mostrar, mais uma vez, que não preciso de gastar dinheiro para mimar a minha mãe ou qualquer outra pessoa que me ame incondicionalmente. A verdadeira prenda foi a minha presença e o meu amor. E eu sei disso. E sabia, mesmo que inconscientemente. Por isso não deixei de sentir um certo vazio quando me fui embora. Pela primeira vez, desde que me mudei, quase dois meses atrás, senti um vazio de deixar um pedaço de mim para trás. E não se trata da casa, mas das pessoas que habitam nela. Elas vão estar sempre comigo, para onde quer que vá, mas as armadilhas do ego humano ainda me são traiçoeiras. De vez em quando ainda dou por mim a pensar que não sou suficiente e que tenho que dar alguma coisa para compensar a minha ausência. Outras, fico-me só pela melancolia, de saber que vou navegando de porto em porto e que de vez em quando... de vez em quando regresso a casa. Se dizem que casa é onde o coração está, eu posso dizer que tenho muitas casas, porque o meu coração está com as pessoas que amo.

11-08-2014

Cada vez mais tenho a sensação de que o tempo voa. Cada vez tenho mais a sensação de que não importa antecipar o quer que seja, porque é tudo um momento no tempo. É tudo efémero. Tudo menos o agora que é eterno. O presente. A única coisa que a maior parte das vezes, a maior parte de nós ignoramos. Depois de uma série de dias em Vagos, no festival de música pesada onde já vou pelo terceiro ano consecutivo, é impossível para mim não olhar para trás. Não olhar para trás e ver que o ano passado, quando estive sozinho, longe das pessoas com quem fui ao festival, estava rodeado de mulheres bonitas e atraentes, com quem disse para mim mesmo que gostava de ter uma namorada com quem pudesse partilhar um evento do género. Um pensamento recorrente, um pensamento que acabava por descartar, talvez por receio das expectativas, por receio de ser chamado tolo por mim próprio, um pensamento que apesar de ser aquilo que desejava, era símbolo de uma ingenuidade e de um querer que durante toda uma vida me convenci, ou me convenceram (ou me deixei convencer) que era uma fantasia infantil. Um ano depois, partilho a música que gosto com a mulher da minha vida. Acho que não deveria ter medo de sonhar, acho que nenhum de nós deveria ter medo de sonhar mas é o estado em que nos colocaram. Com medo de sonhar, de voar alto. Aprendemos a nos conformar com as expectativas baixas de uma vida medíocre apenas porque é mais fácil suportar as desilusões se não pensarmos naquilo que desejamos. Claro que isso leva a toda uma outra questão, que é a de sabermos o que realmente queremos. A entrada da Marta na minha vida foi a maior prova de que eu precisaria de como temos aquilo que pedimos. O problema é que na maior parte das vezes não pedimos o que queremos por auto-censura ou por um sentimento idiota de querer andar com os pés no chão, sentimento imposto pela sociedade. Fomos feitos para voar. 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

05-08-2014

Agora ando numa fase de dormir mal, mas nem se trata propriamente de dificuldades em adormecer. Embora não adormeça imediatamente, não é algo que me angustie, acaba por acontecer. É mais com a posição. Ando com a mania parva de ficar a dormir sobre o meu braço esquerdo e depois acordar não sei quantas vezes durante a noite para mudar de posição. O que é parvo porque anteriormente nunca dormi assim. Tenho a impressão de que foi algo que veio do campismo, o que é ainda mais parvo já que uma semana de maus hábitos não deveriam ter ficado. Considerando que na quinta vou para outro festival, talvez seja a indicação de que a coisa não vai melhorar para já. A Marta também não teve uma noite descansada. Estava a sonhar que estava a ser perseguida por uma entidade… uma entidade que pelo o que ela já me contou a persegue há muito tempo. Nunca escrevi nada sobre isso aqui porque sempre tive receio de que ao fazê-lo a estivesse a dar poder. Não sei se é o problema do diário ou se o problema é meu, de focar nas coisas e dar-lhes poder. Se tivesse a capacidade de me focar nas coisas boas como nas coisas más, acho que teria ainda mais abundância do que aquela que tenho actualmente – pela qual me sinto extremamente grato. Por isso e voltando atrás, a única coisa que queria era fazê-la sentir mais segura, mas parece que neste momento algo me está a fazer afastar dela, pelo menos quando estamos na cama. Se fosse algo consciente, seria simples de corrigir. Sendo algo que acontece quando estou praticamente inconsciente… será feito na mesma. Não é impossível, eu é que ainda não descobri como o fazer. Trabalho em progresso.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

04-08-2014

Esta segunda-feira foi cansativa, mas bem melhor que o final da semana passada em que estive sozinho e a cargo de todas as tarefas. Quando a equipa está toda reunida, o trabalho flui, realmente flui, quando falha um, o stress bate-me à porta.Apesar deste cansaço, disse a mim mesmo que iria praticar a leitura de aura assim que chegasse a casa. Ao falar disto com a Catarina, ela disse-me algo como "é algo que só tu podes ver, organizar-te" e o problema é esse. Continuo a fazer melhor as coisas que me são impostas do que propriamente aquelas que me decido a fazer. Também tenho que ser sincero em dizer que há excepções e que o fazer melhor as coisas não quer dizer que as encare de melhor forma, o que leva à questão principal, não é? O que é que é mais importante, fazer algo de livre vontade e descontraído - o que implica nem sempre ser feito - ou fazer a todo o custo? Quanto ao curso, passaram três ou quatro semanas e eu nem reparei, o tempo voou de tal forma que tivemos que pedir à Catarina um adiamento do curso, porque eu simplesmente não peguei em nada. E é algo que me preocupou. É algo que me faz sentir que estou a remar contra a maré, quando sinto, e já senti de maneira mais forte, admito, que isto faz parte da minha evolução espiritual. Ou será apenas teimosia minha? Seja como for, se eu visse as coisas como a Marta e Catarina vêem, seria se calhar mais fácil para me motivar, mas o problema é esse, não é...? Continuar a procurar por aquilo que está exterior a mim e renegar o que vem naturalmente por não estar de acordo com as minhas expectativas. Se calhar o curso serve para isso mesmo e se ajudar nesse ponto, mesmo não sendo o que estava intencionado, vai valer mesmo a pena.

domingo, 3 de agosto de 2014

03-08-2014

Já passou tanto tempo desde a última vez que escrevi nas páginas deste diário que até me interroguei se faz algum sentido fazê-lo. Fui de férias para Sines, correu tudo lindamente onde, apesar de à primeira vista não parecer, cresci muito principalmente quando numa ou duas ocasiões ou até mais que isso se for a pensar nisso, em que as coisas não ocorreram como planeado. Aliás, todas as expectativas em relação a esta viagem... hum... é errado dizer isto... se calhar é melhor dizer algo como... aconteceu tudo de forma diferente daquela que eu esperava, excepto pelo facto em que a minha relação com a Marta saiu reforçado e partilhámos muitos momentos bons. Engraçado como uns meses atrás esta viagem tinha como propósito, além de ser a forma de eu partilhar experiências (e esta era uma que eu queria mesmo partilhar) seria para ver como nós nos davámos uns dias sozinhos. Quem poderia prever que antes disso já estaríamos a viver juntos?

Sines e quando voltei, uma semana com o meu sobrinho. A minha relação com ele é estranha, sendo uma proto-relação pai-filho que já me assustou mais mas de vez em quando ainda volta. Ele vê-me como um exemplo, uma espécie de pai, enquanto eu vejo-o como o desafio potencial que terei com um filho, a responsabilidade de não ter paciência, de estar cansado e de ser desafiado constantemente. Foi mais uma semana disso.

Foram duas ou três semanas de desafios, grandes e pequenos. Uma coisa engraçada é que sempre que comecei a escrever neste diário, desde o início, antes mesmo de ser um diário, foi sempre uma questão de libertação. Comecei a escrever no dia em que a Susana acabou comigo. Escrevi muito, escrevi muitas coisas que ainda são válidas, e muitas outras, frutas de dor, que não fazem o menor sentido na pessoa que sou hoje. Libertei muita coisa, muitos demónios, aprendi muito e foi uma ferramenta útil, tanto para a minha queda, como para a minha evolução. O facto de não me ter lembrado nestas duas semanas ou três, nem sei, quer dizer algo. Talvez a vontade de usar a muleta ou o medo de cair seja tão grande que cause a resistência de colocar a muleta de lado, mas se tiver distraído com outra coisa o tempo suficiente para me esquecer dela, consigo andar sozinho.

Ando decidido a colocar muitas muletas de lado e conhecendo-me bem, sei que tenho muitas e que tenho enorme resistência, mas neste momento estou cansado de muletas que se tornam cruzes. Acho que não preciso nem de umas ou de outras.