domingo, 28 de setembro de 2014

20-09-2014

A ligação que tenho com os animais pelos vistos está a despertar, apesar de eu não lhe dar importância. Uns dias atrás pareceu-me que o nosso hamster não estava bem ou que pelo menos estava a agir de forma estranha. Imediatamente disse a mim próprio que estava a imaginar coisas e segui em frente. No dia seguinte, assim que entrei no quarto dos animais, tive o instinto de ver o hamster. Conforme abri a gaiola, e bati suavemente onde ele costuma estar sem ter nenhuma reacção, pensei imediatamente que tinha morrido. Levantei o plástico para confirmar que as minhas suspeitas eram reais. O impacto não foi o mesmo que tive com a Gobinha mas não deixei de ficar chateado comigo mesmo por não ter feito nada, por não ter confiado no meu instinto e isso leva-me a uma questão que sempre foi fulcral em mim e que pelos vistos continua a ser:

Confiar no meu instinto.

Continuo a duvidar das sensações, das vontades, do responder algo e não calar por ter receio de não ser o certo. De querer fazer algo e congelar por não querer chamar a atenção das outras pessoas. O problema não é eu não fazer nada, não é o calar-me. É o continuar a ter medo daquilo que as pessoas possam fazer ou dizer em consequência de uma atitude menos correcta da minha parte. É não me permitir a errar devido ao que os erros no passado me trouxeram e à minha descrença na capacidade para lidar com eles da forma como acredito ser a correcta. É o não agir, o não fazer nada para que não possa ser acusado de errar. Hoje em dia eu sei que é melhor agir, que é melhor fazer algo, tendo consciência e responsabilidade, mas mesmo assim agindo. Até mesmo agindo ao não fazer nada seria melhor. Agir por bloqueio de medos é algo que ainda me causa confusão principalmente por me fazer sentir impotente, já que é automático, totalmente fora do meu controle, ou pelo menos, surgindo sempre em alturas em que estou distraído o suficiente com outras coisas para que possa decidir o contrário.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

19-09-2014

Hoje descobri que fiz uma burrada de todo o tamanho no trabalho. Fiquei fulo comigo mesmo. Dei razão às vezes que não tive iniciativa por questões de insegurança porque são momentos como o que tive antes de ir de férias, em que tive uma iniciativa inexplicável, julgando que estava a fazer bem e descobrindo mais tarde que era uma burrada de todo o tamanho. Sei que na altura julgava que estava a fazer o correcto, que não foi loucura momentânea: eu estava mesmo convencido que estava a fazer o correcto. A minha pessoa de hoje amaldiçoou a pessoa de há quinze dias atrás, não conseguindo justificar as suas acções e não tendo mais nenhuma explicação além da loucura ou estupidez momentânea embora saiba de que a primeira é improvável e que a segunda não é explicação satisfatória. Não agora, não neste momento. Tenho alguma resistência em falar disto com a Marta, porque sei o que é que ela vai responder e sei que ela vai ter razão. Eu sei que não há nada que possa fazer agora e eu sei serve como aprendizagem, mas eu sinto-me como se estivesse no décimo segundo ano, depois de descobrir que tinha confundido o “e” com “i” depois de acabar uma prova de português.

Estou danado comigo mesmo como sempre fico quando me confrontam com os meus erros básicos. Nisso ainda não mudei. Não sei se vai acontecer até que fique em paz com os meus erros – embora o ficar em paz fique muito próximo da desresponsabilização. Espero que não, embora saiba que amanhã isto não vai ter tanto peso como tem hoje. Independentemente como isso me deixa irresponsável ou não, gostava de retirar o que tenho a retirar dos meus momentos menos brilhantes e seguir em frente sem olhar para trás. É só o que quero.

16-09-2014

Tenho tanta coisa para dizer que temo que com o atraso as coisas se atropelem e algumas fiquem esquecidas. Com a morte da Gobinha, o Juca, o nosso coelho, andava literalmente a morrer aos poucos. A tristeza dele era sentida por mim e pela Marta, mas eu particularmente tive alguma dificuldade em lidar com ela. Andava sempre de volta dele, para ver se o conseguia espevitar mas ele acabava sempre por ficar nos cantos onde a gobinha ficava. Foi essa a grande razão para que começássemos à procura de uma coelha e não foi preciso procurar muito. A Marta perguntou a uma colega que falou com o veterinário da sua zona e teve logo uma pessoa a oferecer uma coelha para adopção. E foi amor à primeira vista, tanto por parte da Marta como meu. Super dócil, a Bunny – baptizada por nós – conseguiu trazer logo o Juca para o mundo dos vivos. O poder que o sexo feminino tem sobre o masculino e ainda bem, ao menos assim, já o vemos mais energético e animado. E esse efeito também se prolongou a mim. Sei que a Marta e até os meus pais já estavam a ficar preocupados comigo e também sei que não havia nada que pudessem fazer, o que também acaba por me irritar e fazer sentir culpado por estar desta forma. Seja como for, foi uma aprendizagem valorosa já que deu para ver e sobretudo sentir, como eu estou em relação aos animais. Que apesar de nesta vida não terem sido muito importantes para mim, que existe, ou existiu, uma ligação muito forte entre mim e os animais, provavelmente de vidas passadas. E nestes dias pós a sua morte, tanto eu como a Marta sentimos a sua presença entre nós. Houve até uma noite em que me levantei sobressaltado porque poderia jurar que ela tinha passado por mim. A primeira vez que senti algo que não físico junto a mim foi um animal e isso já deve dizer um pouco da ligação que tenho com eles, e da qual eu desconhecia por completo existir.

15-09-2014

Poderia dizer-se que a razão da minha ausência por estas páginas se devem-se a finalmente as coisas estarem a correr como desejava e como faz parte de mim, eu não teria razão para falar sobre elas. É verdade que só tenho necessidade de falar, partilhar ou exorcizar quando as coisas não me correm bem, quando tenho algo a perturbar-me. Quer dizer, não tenho só necessidade de o fazer assim, obviamente que também quando estou feliz, tenho vontade de partilhar e espalhar essa felicidade. No entanto, escrever num sítio tão pessoal como este onde sei que ninguém vai ler, poderia perder o sentido. É apenas mais uma coisa onde verifico que muita  coisa mudou em mim quando à superfície eu pareço imutável. A questão é que há realmente muito a contar, muito a partilhar e até exorcizar e que as coisas, apesar de não poder dizer que estão a correr mal, não estão propriamente tranquilas. Não como eu gostaria, mas julgo que também será difícil de chegar a esse ponto porque a minha noção de tranquilidade passa pela calma e estagnação e não acredito que possa evoluir através da calma e estagnação. Provavelmente o não acreditar nisso é a principal razão de não a ter.

É confuso e tudo se torna uma armadilha. O que queremos, o que julgamos querer e depois o que temos nos momentos mais inoportunos.

O que é que nós queremos? O que é que nós realmente queremos? E será que o queremos mesmo? Será que os desejos lançados para o Universo, no conforto e no calor do nosso lar são aqueles que vamos acolher fora dele, quando estivermos fora da nossa zona de conforto? Será que esses desejos, lançados para o ar no ambiente seguro, e que nos empurram para fora dele, são enganadores, quando nos seduzem em momentos em que julgamos ser invencíveis.

Não somos. E eu, desde que nossa coelhinha morreu, apetece-me fugir de tudo e de todos. Dos amigos, dos conhecidos, das terapias, da evolução. Apenas ficar com a Marta, no nosso casulo e ficar à parte do mundo. E este voltar à realidade ou pelo menos à realidade fora do casulo não tem sido fácil. Nesse aspecto o voltar ao trabalho ajudou-me e pressionar ainda mais o estado de estagnação no qual mergulhei. Ajudou mas não mudou porque continuo a querer fugir.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

09-09-2014

Não sei o que tenho. Estes últimos dias depois da coelha morrer sinto-me a definhar também. Tal como o nosso coelho. Ele que era bastante activo, agora passa os dias encostado a um canto, apenas preocupado em mudar de posição e em comer. Mas a sua letargia acho que me está a contagiar. Não vou com isto dizer que a culpa é dele, tal como antes apontei o dedo a culpados à minha volta, uns visíveis, outros invisíveis. Não quero repetir os erros do passado nem usar este diário como usei antes, como uma forma de expelir negatividades, pensando que as estou a exorcisar quando no fundo o que estou a fazer é ajudar a que elas se prolonguem, que a sua vida seja celebrada. No entanto não consigo deixar de evitar de ser sincero e dizer que não me sinto bem. Sinto-me tal como o coelho, apático, sem energia. Esta manhã fiz reiki, já não o fazia há duas semanas, e estava na esperança de que isso se alterasse, mas no fundo eu sabia de que o problema não é a falta de energia. É uma consequência e não uma causa. O problema é eu ter algo a sugar-me a energia. Seja tristeza pela morte da coelha, seja apatia e resistência em relação à vida em geral. É incrível não é? Repórter, escritor, terapeuta de reiki e massagem ayurvédica e prestes a ser de leitura de aura e mesmo assim ainda me deixo contagiar pela apatia, não querer fazer nada do que faço, não querer fazer nada de nada, apenas ficar encostado no meu canto. Como o coelho. Ficar encostado num canto e fechar os olhos, não querendo saber se é dia ou noite, se há vida lá fora ou não. Não interessa. E eu sei que isto não é saudável, que isto não é meu, não pode ser meu. No entanto também sei que tudo é cíclico e que não devo ter resistências, apenas consciência do sítio onde estou. E é nisso que eu estou a falhar redondamente, principalmente por não querer saber. Talvez tenha demasiado tempo livre, mas supostamente é disso que consiste as férias, tempo livre para descansar e fazer coisas que normalmente não se faz. Só queria congelar o tempo, porque apesar de tudo, não me apetece voltar ao trabalho. Não me apetece sair de casa. Apenas hibernar até um novo dia para o qual não me apetece esperar, apenas dormir.

Eu sou superior a isto, eu vou vencer isto. Talvez não hoje ou amanhã, mas não me vou deixar ir abaixo por algo que nem sei o que é.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

05-09-2014

A vida prega-nos partidas. Há muito tempo que ando para vir escrever as novidades, mas ultimamente começo sempre pelo facto de que a única coisa que tinha para dizer era que era uma obrigação vir cá escrever. A cada dia, a cada momento em que me lembrava dizia para mim mesmo:"tenho que ir escrever no meu diário para dizer como estou a fazer as coisas por esforço, como estou a deixar esses dias para trás." Com a entrada da Marta na minha vida, tudo o resto ficou para trás, a dor do passado, a questão com a Catarina, a questão profissional, de dinheiro. Mostrou-me claramente que os problemas que eu identificava na minha vida eram apenas questões secundárias, que aquilo que eu verdadeiramente procurava na minha vida era mesmo a Marta. Nem era alguém como ela. Era ela. Para este momento da minha vida, ou seja, tive que passar por tudo isto sozinho, para dar valor à companhia dela. E dou valor. O curso da leitura de aura correu excelente, já estamos na recta final e estou orgulhoso do nosso percurso. Sei que ainda temos muito a percorrer mas sinceramente, nunca pensei em chegar aqui. 

Mas, tudo isto... tudo isto são trivialidades.

Hoje a nossa coelha morreu. A Marta veio ter comigo à cama, a chorar e inicialmente nem percebi o que ela estava a dizer. Depois quando percebi, não quis acreditar. Mais uma vez, perante a perda, fiquei dormente. Confortei a Marta, mas nem senti nada. Nem o vazio de a ver esticada, com sangue, de olhos abertos. Nem a rigidez do seu corpo. Os meus pais vinham cá hoje, ajudar aqui com umas obras em casa e eu estava dormente. Só depois da D. me ligar, a perguntar algo por causa de um workshop que ela está a organizar para mim, e eu só dizia que não conseguia, sem conseguir explicar que não tinha forças para pensar naquilo agora. Com vontade de gritar. Mas eu não disse nada. Estava dormente. Quando me deitei na cama do meu quarto, enquanto os meus pais estavam na sala na tarefa que estavam a fazer, sem quase me dar conta, só pensei em como gostava de desaparecer. Não como antes, não de desaparecer, morrer, mas desaparecer para longe, para estar sozinho, para não estar com outras pessoas. Sei mais que isso, sei que a paz que precisamos está em nós e o dia foi suportado razoavelmente bem, sem grandes percalços, embora tenha sentido um cansaço enorme. Acho que grande parte desse cansaço desapareceu quando finalmente chorei nos braços da Marta. Se a estou a ensinar a desapegar do desaparecimento dos animais, ela está a ajudar-me, a ensinar-me a lidar com a perda. Algo que sempre me recusei a fazer. Por vezes aquilo que recusamos no presente, aparece-nos de forma que não conseguimos recusar no futuro. Apesar da dor da perda, sinto-me abençoado por esta aprendizagem e ainda mais abençoado por ter a Marta do meu lado.


domingo, 17 de agosto de 2014

12-08-2014

Sentimento estranho o de hoje. A minha mãe fez hoje anos e sempre foi um momento em que passámos juntos. Foi o primeiro aniversário desde que saí de casa e foi uma sensação estranha. Sou um homem de hábitos e de resistência à mudança desses mesmos hábitos e a cada mudança, surge um período de habituação que é sempre algo longo e camuflado. Nunca sei quando acaba mas quando penso que já acabou é porque ainda não começou sequer. Acho que foi a primeira vez em que me bateu não viver com os meus pais. Compramos-lhe uma prenda, um tablet.A ideia era ela ficar feliz, embora soubesse que pudesse haver alguma resistência da parte dela - infelizmente existe a tendência em colocar-se no final da fila no que diz respeito a receber miminhos, uma tendência irritável que herdei e perante a qual ainda me debato entretanto. Ela gostou da prenda e até foi uma reacção muito positivo. Acho que as saudades e a felicidade de estar presente era tão grande que até lhe poderia oferecer um caroço de maçã embrulhado num papel que ela gostaria na mesma. Infelizmente o tablet estava avariado e eu fiquei triste. Sei que não foi por acaso que o tablet ficou avariado. Simbolizava a minha intenção de a mimar, mas foi uma forma da vida me mostrar, mais uma vez, que não preciso de gastar dinheiro para mimar a minha mãe ou qualquer outra pessoa que me ame incondicionalmente. A verdadeira prenda foi a minha presença e o meu amor. E eu sei disso. E sabia, mesmo que inconscientemente. Por isso não deixei de sentir um certo vazio quando me fui embora. Pela primeira vez, desde que me mudei, quase dois meses atrás, senti um vazio de deixar um pedaço de mim para trás. E não se trata da casa, mas das pessoas que habitam nela. Elas vão estar sempre comigo, para onde quer que vá, mas as armadilhas do ego humano ainda me são traiçoeiras. De vez em quando ainda dou por mim a pensar que não sou suficiente e que tenho que dar alguma coisa para compensar a minha ausência. Outras, fico-me só pela melancolia, de saber que vou navegando de porto em porto e que de vez em quando... de vez em quando regresso a casa. Se dizem que casa é onde o coração está, eu posso dizer que tenho muitas casas, porque o meu coração está com as pessoas que amo.