Toda esta história tem-me tirado a paz e descanso. A Catarina era das últimas pessoas que achasse que me pudesse fazer uma coisa destas. Claro que já tivemos os nossos desentendimentos mas nada provocado por outra pessoa. Na verdade, até tivemos situações que foram agudizadas por outras pessoas, mas causadas directamente por outras pessoas... nunca pensei. E a cada momento que encontro um pouco de paz, aparece sempre qualquer coisa que ma rouba de mim. Ontem o dia de trabalho correu surpreendentemente bem. Consegui abstrair-me da situação toda, talvez ou quase de certeza por ela não estar presente, mas correu bem. No entanto, quando cheguei a casa tive mais uma daquelas achas para a fogueira que me faz automaticamente ganhar raiva. Não preciso disso. Aliás, não preciso de nada disto. A mensagem disse-me que deveria ter fé naquilo que sou, que deveria ser forte, que seria tudo um teste. Acho que são estes momentos que definem a fibra com que somos feitos. E por isso mesmo, hoje de manhã, decidi que começava aqui a minha recuperação de toda esta história. Não dizer que isto foi mais uma queda, mas sim uma escorregadela, para me lembrar que é sempre possível voltar às velhas energias, que é sempre possível voltar a cair nos mesmos erros. Voltar a cair na insegurança. Voltar a duvidar do meu valor. Voltar a pensar que só tenho importância se as outras pessoas me derem importância. Felizmente, hoje sei mais do que isso. Mas também não foi algo que tivesse sido fácil de atingir.
À tarde fui a uma meditação, organizada num grupo desportivo aqui da terra. Resolvi quebrar com os meus padrões de ficar em casa a repetir frases que foram ditas, frases que deviam ter sido ditas e outras coisas que servem unicamente para me magoar. Procurei por algo que me pudesse ajudar a centrar a atenção noutra coisa e mal abri a minha página do Facebook, dei de caras com um evento, promovido pelo grupo desportivo. Apesar do impulso inicial para ir, ainda tive a ver as pessoas que iam, se iria encontrar alguém que pudesse perturbar a paz que procurava atingir, hesitando um pouco, mas a vontade de sair de casa foi mais forte e lá fui eu. E ainda bem. Conheci uma pessoa com quem passei as próximas seis horas seguintes à meditação a falar. A D.. E por incrível que pareça nem temos gostos parecidos, aliás, em termos de gostos, somos bastante diferentes, mas aquilo que nos une mesmo foram as quedas que demos e a capacidade que tivemos, com ajuda, para nos levantarmos sozinhos. Não é uma pessoa que exiba as suas cicatrizes como forma de chamar a atenção sobre si mas que ao mesmo tempo não as esconde, fazendo de conta que não existe. Algo que eu também fiz e que sei que não é nada fácil por isso consigo reconhecer e dar bastante valor a este acto.
A meditação não foi totalmente pacífica. Foi num salão grande e estava demasiado frio para que conseguisse relaxar. Foi uma meditação para nos ligarmos à mãe Natureza e muitas pessoas - a maior parte vindos de outros lados, não conhecia praticamente ninguém, além de uma outra pessoa que travei conhecimento pelo facebook, por termos alguns interesses em comum, a Sandra, que veio com o namorado o Paulo - tem o nome do meu melhor amigo. Foi o suficiente para não me sentir demasiado deslocado na minha própria localidade. Na meditação, algumas pessoas tiveram visões. Quando a D. me perguntou se eu tinha conseguido ver alguma coisa, eu disse que não. Não menti. Na verdade, coisas estou sempre a ver, não as consigo é distinguir. As sombras ganham vida quando tudo está escuro ou os meus olhos estão fechados e antes isso assustava-me, agora não mais.
Depois da meditação eu e a D. estivemos a falar, e tudo começou porque ela insistiu comigo para que lhe dissesse o que tinha visto. Acabámos por falar um pouco, cada um dos seus fantasmas e inevitavelmente acabei por lhe falar desta minha mais recente questão e ela mostrou-se interessada mas sem mostrar julgamento - confesso que por vezes não gosto que alguém diga mal da Catarina, mesmo sendo numa altura em que eu próprio digo mal dela. Acho que sou protector dela a esse ponto. O tempo voou, a Sandra e o Paulo foram-se embora e apenas ficámos lá, nós dois a falar. Tinha saudades de ter conversas destas. De qualquer forma, ambos tínhamos compromissos e tivemos que deixar a conversa para outra altura. O Nando, o irmão da Catarina, convidou-me para ir ao cinema e naquela altura pareceu-me perfeito. Apesar da meditação me ter realmente acalmado, também me pôs em contacto com o problema de uma forma ainda mais aproximada. Talvez fosse o que eu precisava para digerir melhor. Sair com o irmão dela também foi algo nesse sentido, embora eu já tivesse desabafado tanto com ele sobre esta situação que senti que não tinha muito mais para dizer sem me repetir - e eu odeio repetir-me. Jantámos e vimos um bom filme e eu consegui abstrair-me da situação. Fiz questão de lhe agradecer isso mesmo. Não esquecerei ele ter estado presente quando precisei, afinal, os amigos são para isso mesmo, certo?
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