Gostaria poder de dizer que tinha visto muita coisa. Na verdade, até vi mais do que esperava ver. Combinámos ir até Atlântida. A minha mente racional protestou dizendo que era uma perda de tempo, que era tudo apenas uma sugestão e que iria ver o que a palavra me sugeria. De certa forma, após uma pequena investigação pela fonte de informação mais barata e acessível, é mesmo assim que se processam todas as informações recebidas do... divino. Cada um tem a sua linguagem e como tal, as imagens que se recebem são todas de acordo com aquilo que conhecemos. Com o nosso código de conhecimento, de forma a que todas as mensagens sejam recebidas e entendidas. Sentimos o mesmo quando temos de falar com alguém sobre um determinado estilo de música, ou filmes, ou desporto. Existem formas específicas de linguagem que até podem não corresponder exactamente à verdade mas que servem para que o destinatário fique com uma ideia, uma sensação da verdade. De qualquer forma... não vi nada (e desconfio que foi por causa de toda esta questão com a Catarina) e mesmo assim, tenho a certeza de que fui a qualquer lado. Combinámos uma hora específica para irmos. Eu deitei-me na minha cama e enquanto esperava, tentava-me abstrair, limpar a mente, mas isso foi uma coisa que não consegui fazer. Só me veio à mente a injustiça da situação e mais principalmente, o facto de no dia seguinte ela estar provavelmente de volta ao trabalho. Infelizmente conheço bem a sensação de estar na mesma sala com ela e nem sequer conseguir olhar para a cara dela. Felizmente não sou a mesma pessoa e isso é algo que me dá esperança, mas lá está, não deixa de ser um teste.
De qualquer forma, estava eu nestas lutas internas, até que, na escuridão, à frente dos meus olhos, que estavam fechados, vejo uma série de mandalas a rodopiar a uma velocidade estonteante e senti o meu corpo a ser puxado. Não me recordo de ver mais nada mas... isto eu senti que foi real. Bem real. De manhã acordei mais cedo que o despertador, para variar e não me consegui lembrar de nada, apenas esta sensação ficou bem forte. O nervosismo, esse, voltou logo assim que levantei a cabeça. Foi um sofrimento lento até que chegasse a altura em que ela entrava ao serviço. Devo estar mesmo diferente. Todo o carinho que tenho por ela superou toda a injustiça que senti que foi feita contra mim e fui o mais cordial possível, sem nenhuma ponta de ressentimento e sinceramente, fiquei orgulhoso de mim próprio. Acho que foi a primeira vez na minha vida em que consegui anular uma raiva e principalmente mágoa tão grande. De qualquer forma, não deixei de sentir que algo se partiu e que a nossa amizade ficou com feridas internas. Talvez seja uma questão de tempo e tudo tenha que passar. Também não há nada que possa fazer agora, o que foi dito foi dito e o que foi sentido está enterrado, porque não vale a pena buscar más energias para gastar aquelas que tenho. Se alguma coisa ficou irremediavelmente perdida, o tempo dirá. Deixar ir na sua maré e receber o que vier de volta.
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