De manhã, quando estava no computador, depois de acordar cerca das nove horas, sem esquecer que me tinha deitado por volta das quatro, a Marta pergunta-me, muito delicadamente, se pode vir à tarde vir ter comigo. É verdade que já tinha planeado uma série de coisas para a tarde, inclusive preparar a palestra de próximo sábado mas também é verdade, que quero estar com ela. Na verdade, é por estas "pequenas" coisas acontecerem que fico provas em como isto não é tão simples como parece ser. Claro que a forma como nos apaixonámos e aproximámos um do outro é uma coisa do outro mundo e que eu sinto com ela um à-vontade que nunca tive com mais ninguém. Mas é esta relação perfeita que me faz aperceber de algo que eu já tinha noção. Grande parte dos problemas que tive nas outras relações foram causados pelas minhas resistências a deixar fluir, a quebrar com os planos e rotinas. Felizmente a Marta está a ajudar-me, e muito, neste aspecto, o que faz com que a resistência seja facilmente ultrapassada, qualquer uma que possa ter aparecido até agora. E mais engraçado é depois do que aconteceu à tarde.
Assim que a Marta chegou, perguntei-lhe se estava tudo bem, ao que ela respondeu mais ou menos. Fiquei logo de pé atrás. Então parece que por ter chegado a casa tarde, coisa que ela já tinha avisado, os seus pais reagiram de forma menos... acolhedora. Apesar de ter sido uma solução passageira, dado a ter mudado de emprego e de região, ela sempre tentou adiar e sentir-se confortável como as coisas estavam. Adiar para tentar recuperar um pouco da mudança de vida que teve que efectuar. Na verdade, no primeiro dia que ela se mudou teve logo um aviso, uma discussão com o pai. Depois foi tendo vários, mas nada que não superasse, até porque ela odeia discussões. Ontem no entanto foi a gota de água. Disse aos pais que ia começar a procurar casa, coisa que também não foi recebida exactamente com entusiasmo - preso por ter cão, preso por não ter.
Tentei não julgar e gostava mesmo de ter espaço para ela vir para aqui, viver comigo, mas não dá, não tenho condições infelizmente. Ela disse-me que ia começar a procurar casas amanhã e eu vou tentar ajudar, a ver o que consigo encontrar. Contei à minha mãe e ela disse o mesmo que eu, que gostava de ter espaço cá para a ter. E depois também me disse algo que acho que só pensei mesmo lá no fundo.
"Tens que começar a ver uma casinha para vocês viverem juntos."
Apesar da ligação que a minha mãe tem de mim e de saber que lhe faço muito falta, que lhe sou um grande apoio, ela dizer isto teve tantos significados ao mesmo tempo. Significou que ela gosta e confia na Marta e que principalmente vê-a como eu a sinto, a mulher com quem quero viver o resto da minha vida. Depois também ela dizer aquilo que eu tinha cá dentro, enterrado cá no fundo, a ideia de viver com ela mas que ainda achava que não era tempo. A pessoa que menos esperava acabou por me dar o sinal de partida. A ideia agrada-me mesmo muito, até porque a Marta sugeriu arranjar casa mais perto de onde estou. Amanhã começo a procurar casa.
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