Normalmente são os momentos de alegria que fazem com que me sinta mal por ter dito coisas menos boas da minha vida, mas neste caso, não podendo dizer que estou triste, também não posso dizer que esteja propriamente alegre. Neutro talvez seja a melhor descrição. Estes últimos dias foram de cansaço. Tentar conciliar a minha crescente falta de motivação com o cansaço de dormir pouco, ter ido ao concerto fazer mais uma reportagem depois de uma maratona de não sei quantas horas em pé, dormir umas poucas horas ir fazer uma massagem e finalmente descansar um pouco, não da forma ideal - ficar em casa a olhar para a televisão debaixo de uma manta - mas pelo menos de uma que sem o conforto físico me trouxe alguma paz de espírito - fui conhecer a Sofia.
Essa neutralidade faz com que me seja possível apreciar tudo o que tenho hoje em dia e principalmente as pessoas que me surgem, de uma forma muito mais nítida, mais consciente. Dar graças a tudo o que se tem muitas vezes é um exercício forçado por consequência de algum ensinamento espiritual que achamos apropriado. E é sempre apropriado, desde que seja sentido. Continuo a procurar por uma alegria, por uma felicidade que neste momento não tenho na minha vida, mas tenho uma paz interior (ainda frágil, sei bem) que julguei nunca atingir. Tenho mais projectos do que aqueles que julguei alguma vez ter em aberto e ainda uma indecisão crescente sobre aqueles que devo prosseguir e mesmo assim, olhando para trás, tanta coisa que deixei de parte. Um mundo, um mundo de coisas dentro de mim, um mundo de coisas que quero conscientemente fazer, um mundo de coisas que quero inconscientemente fazer e a luta, o passeio entre o equilíbrio dos dois.
Parte de me sentir grato vem de ter conhecido pessoas como a Sofia, que entraram na minha vida, sabe-se lá como ou porquê, mas que de certa forma me vieram a apoiar em momentos que mais precisei, que me vêm trazer luz. Tal como a Marta, outra mulher fascinante, cheia de sensibilidade e também com uma forte ligação ao divino. Basicamente, tudo aquilo que procuro, que sempre procurei. As duas são capazes de ser as pessoas que mais me apoio me deram nesta fase difícil e que me têm ajudado a colocar os pés ao caminho, cada uma à sua maneira. O que elas fizeram, no entanto, foi apenas dar-me a vontade de começar a mexer. Sempre estive à espera de uma salvação, salvador ou salvadora e aquilo que elas me deram - elas e tudo o que tem acontecido ultimamente - foi a percepção de que há mais. Há mais para além daquilo que julgava haver, há mais para além do passado que teimo em não querer deixar. Há mais para além do futuro que idealizei. Há mais para além de todo o medo que está fora destes dois tempos, destas duas prisões.
Acredito que a vida nos mostra muitas coisas, que nos mostra aquilo que precisamos, nunca escondendo aquilo que não precisamos, que por vezes apenas dependemos do nosso livre arbítrio, cego e surdo, para seguir a opção que nos parece correcta. Acredito que muitas vezes escolhemos o caminho errado, tomamos as decisões erradas para depois podermos tomarmos as correctas, se as decidirmos tomar. Acredito que a escolha é minha e que pelo caminho me vão aparecendo pessoas dispostas a perder o seu tempo e energia para nos dar as ferramentas que precisamos. Por vezes apenas um pouco de força e carinho para continuarmos. Sinto-me grato por isso e uma tranquilidade, algures no meio entre a alegria e a tristeza, por saber que continuo a caminhar em direcção a algo, aquilo que acredito ser para mim.
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