quinta-feira, 20 de março de 2014

18-03-2014

Hoje tive uma conversa com o Telmo muito interessante e de certa forma irónica. O Telmo foi um amigo com o qual eu decidi, quinze anos atrás, ir aprender música. Tínhamos grandes planos, de fazer uma banda, de vingar no mundo da música, tal como os nossos ídolos. Assumi que tínhamos dois os mesmos planos e fiquei desiludido quando ele não seguiu à risca esse plano. Mais tarde acabámos por nos desentender quando eu me fartei de combinar coisas com ele e ele faltar ao combinado. Hoje, à distância, percebo de que ele apenas tentou agradar-me e não teve a coragem de dizer que não estava interessado ou que não queria por receio de me desiludir. É estranho, mas sem ser pai tive uma enorme lição daquilo que poderia ou poderá acontecer com um filho, caso imponha sobre ele os meus sonhos e os meus anseios. Ele até poderá concordar mas a longo prazo, não tendo lá o coração, a paixão, simplesmente vai sair na primeira oportunidade que tiver. Eu queria muito fazer músicas novas, ter lançamentos, ensaiar, gravar e ele parecia ter sempre outras prioridades e isso sempre me deixou perplexo. Hoje, felizmente, vemos os dois a vida de outra forma e nos últimos anos houve uma aproximação saudável. E partilha também. Se ele fosse meu filho, ficaria orgulhoso. E em certa medida, também estou orgulho de mim próprio, já que não o vejo da forma superior que o pai vê o filho, alguém a quem se pode potencialmente moldar à nossa imagem, mas como um igual. Alguém com visões parecidas e diferentes ao mesmo tempo da vida e do que nos rodeia, respeitando as diferenças e celebrando essa proximidade.

Eventualmente acabei de deixar a música para trás enquanto ele foi evoluindo bastante a um ponto que eu nunca cheguei, por preguiça ou por falta de motivação. A paixão dele pela música foi algo que aprendi a respeitar e admirar. E é engraçado e meio irónico, os meus interesses agora estarem noutro campo enquanto ele tem aquele fogo que eu tinha tantos anos atrás para fazer algo que o realize artisticamente. Recentemente, ele tomou uma decisão que eu já pensei em tomar. Despediu-se. Sentiu-se a ser consumido pelo seu emprego e demitiu-se. Algo que tenho pensado bastante ultimamente. Disse-me hoje que vai decidir entrar para a faculdade, para uma área que sempre foi a paixão dele. E eu fiquei com um orgulho enorme dele, uma sensação mista do antigamente, em que me sentia como pai dele com a de agora, em que o vejo e sinto como igual. E de certa forma, um certo sorriso interior, por saber que apesar de termos tido a nossa amizade afectada anos atrás, em que eu lhe voltei as costas por mágoa, hoje em dia, ele compreende exactamente o que sinto, sem que qualquer uma das partes faça o esforço para isso. Antes o que era forçado, de parte a parte, agora é natural. E é tão bom estes pequenos reencontros que a vida nos proporciona. Quando largamos do controle, acabamos por ir parar ao sítio onde sempre quisemos estar. Não é no tempo que desejamos, mas naquele em que precisamos.

Sem comentários:

Enviar um comentário