Estou de rastos mas realizado. Saí do trabalho, apanhei o comboio para a outra margem, fiz a massagem, voltei para casa quase às onze da noite. Foi um dia longo, cansativo mas não podia sentir-me melhor. Fora do meu ambiente, fora do meu horário, fora da minha zona de conforto e mesmo assim, surpreendentemente bem, isto sabendo que amanhã vou ter uma reportagem. As coisas fluem e agora compreendo como assim é quando se abandona toda a resistência. Cada vez mais elimino a resistência da minha vida, cada vez mais, deixo-me ir e cada vez sinto que estou a ser encaminhado. Sem querer entrar em coisas muito esotéricas, nas quais estou totalmente embrenhado, mas... de alguma forma, é capaz de ser esse o grande segredo da vida que sempre procurei. O sentido de tudo, o sentido da existência, os segredos do universo.
Não os descobri.
Aquilo que descobri foi que... afinal precisavas de saber bem menos do que julgava para ser feliz. Estou a avançar às cegas. Pelo menos racionalmente, mas mais que nunca, vejo. Como os cegos vêem para além da beleza exterior das pessoas, como de olhos fechados se ama sem saber o que está à superfície, sem querer saber, vendo mais para além, sem procurar ver o que encontram. Apenas ver com o coração. Apenas sentir. Esse é o segredo. Sentir sem resistência. Acreditar sem temer. Ir. Fluir. E eu sinto que tenho que agradecer e eu sinto que tenho muito a agradecer embora eu saiba que só estou aqui agora porque me permiti a estar aqui agora. Eu só tenho o que tenho agora porque, finalmente, me permiti a tê-lo. Finalmente permiti-me a ser eu próprio. Sem temer o que os outros possam dizer, sem temer quebrar com os meus auto-impostos limites. Atrever-me a tal, a ser.
Ser.
Eu.
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