A Marta ontem dormiu mal. Ainda se está a habituar ao novo espaço, à nova realidade - eu acho que ela está a ser uma verdadeira guerreira, não me imagino a fazer as mudanças que ela fez na vida dela de forma tão positiva e confiante, mas eu também nunca gostei da mudança, aliás, os grandes problemas que tive na minha vida foi por não aceitar as mudanças, não da forma mais positiva. Bem, ela dormiu mal, mas a cada vez que adormecia, fazia-o a ligar-se à minha alma. Da primeira vez ela chegou até ao nosso sítio secreto, acompanhada por crianças ou anjos (não tem bem a certeza) e quando chegou lá, eu não estava. Ela ficou a brincar com os anjos à minha espera mas acabou por adormecer. Achei muito estranho não estar lá... o que será que significa? Não lhe perguntei se ela se tinha ligado à minha alma ou se tinha concentrado no nosso sítio. Se foi a primeira é estranho, não estar lá, na segunda... não é tão estranho, mas onde raio andava eu? É daqueles mistérios que provavelmente não serão para eu eu desvendar ou sequer (tentar) perceber, mas que é intrigante, é. Depois de dormir por mais ou menos uma hora acorda e tenta novamente e eu já estou presente, desta vez, dei-lhe a mão para ela passar por um caminho de rosas brancas mas depois acabou por adormecer outra vez. Não teve mais ligações mas sonhou a noite toda que andava por aqui, no bairro, à minha procura. Perguntei-lhe se sentiu-se aflita, ao que ela respondeu que não, apenas estava ansiosa por estar comigo. É mútuo e provavelmente também sonho com o mesmo, se me lembrasse dos meus sonhos poderia sabê-lo.
Há algo que me esqueci de contar... penso eu... folheei o diário à procura de algo nas últimas páginas mas não encontro nada. Provavelmente, quando por qualquer motivo o ler, vou encontrar coisas repetidas, mas se calhar o querer e ter vontade de o fazer é mais importante de que repetir ou não. A Marta, no Sábado passado, deu-me uma coxa que representou aquela que tinha aparecido na ligação, com o arco-íris a sair de lá. Ela pintou a coxa com as sete cores. Achei o gesto tão querido e tão simples. Acho que este tipo de coisas, este tipo de sensibilidade, tinha saudades dela. Só me lembro de algo assim com a Susana, mas mesmo assim... era diferente, com a Susana era como se houvesse uma tentativa de compreensão, um esforço para apreciar os gestos. Agora não. Talvez também seja da idade, afinal já passaram mais de dez anos desde que nos conhecemos - como o tempo voa. De qualquer forma, é algo que me faz muito bem ao coração. Com este tipo de tratamento, acho que chego aos duzentos anos.
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