terça-feira, 22 de abril de 2014

20-04-2014

Hoje a Marta fez-me uma surpresa. A distância está a ser complicada para ela. Quer dizer, para mim também não é propriamente fácil, mas estou tão habituado à ausência que acabo por não questioná-la ou incomodar-me com ela. A Marta não reage da mesma forma e não será por acaso. Se um está a dormir, o outro tem que estar acordado. A verdade é que eu continuo a ser muito rígido com os horários, apesar de todo o trabalho de libertação. Continuo a guardar tudo para momentos específicos, pelo menos na cabeça. Nem as coisas nem pessoas que gosto escapam a isso. Bem, mas isto tudo para dizer que ela fez-me uma surpresa e veio ter comigo. É parvo mas senti-me culpado por ela ter vindo ter comigo. Acho que foi a primeira vez que alguém fez isso por mim, vir ter comigo. Nunca ninguém me procurou. Bem, a não ser a Catarina uma vez quando julgava que estava apaixonada por mim e obrigou, quase, a que voltássemos a andar, pela segunda vez, coisa que durou sensivelmente um mês. Desta forma tão sincera e tão avassaladora... acho que nunca ninguém o tinha feito. Vir ter comigo. Será que sou assim tão importante? É parvo fazer uma pergunta destas nesta altura do campeonato, EU SEI! E não o pergunto de forma consciente de quem quer saber mesmo a resposta. Eu sei que isto acontece por amor, por saudade, por vontade de querer estar junto, mas, compreendendo isso racionalmente, é tudo novo, é tudo tão novo e mesmo sendo tudo tão novo, continuo, de momentos a momentos, a pôr em causa. Tudo. Os velhos receios nunca desaparecem por completo, por mais desaparecidos que estejam. De qualquer forma, isso não impediu que ela viesse ter comigo e que eu tivesse levado a passear. E quando estamos os dois juntos, tudo desaparece, os receios, as dúvidas. É bom sentir-me livre dentro deste sentimento que me prende a ela. Sentir-me livre para sentir. O que sempre senti sempre, com algumas honrosas excepções foram sempre prisões. Prisão do que sentia, prisão do que sentiam por mim o que levava a ter um sentimento por obrigação que nunca fui capaz de manter durante muito tempo. Agora... estou livre para sentir o que sinto e mais importante que isso, pelo menos para mim, estendo essa liberdade à outra pessoa. Aquilo que sentimos livremente é querermos estar os dois um com outro. E isso, isso é o que é verdadeiramente único para mim.

A tarde foi maravilhosa de muita partilha e entrega, de muito carinho e amor e muitas descobertas também. Algo que descobri foi que, ao contrário das outras pessoas, com quem consigo manter máscaras - criadas por protecção, por instinto de ser um hábito de uma vida inteira. - com ela isso simplesmente não acontece. A certa altura, quando estávamos abraçados no nosso ninho de amor, ela perguntou-me se eu estava com receio. Eu fiquei surpreendido. Não tinha percebido de onde aquilo tinha vindo. Nem estava a ter nenhum pensamento específico sobre aquilo. Respondi que não e perguntei porquê e ela disse que sentia. Então comecei a falar, sinceramente não sei do quê, mas de questões. Do futuro, da nossa relação, de expectativas, de mil e uma coisas que surgiam na minha mente como uma série de lenços entrelaçados a surgirem do bolso de um ilusionista. De filhos - que não vejo ninguém mais indicado que ela para ter um filho comigo - e da saída de casa, que ambos desejamos, mas que essa mudança é gigante para o meu mundo. E ela identificou isso tudo que estava a dizer como "lá está, receios". E eu parei e fiquei abismado. Ela chega mais depressa ao meu interior que eu próprio. Eu precisei de verbalizar, tirar cá para fora, tudo o que havia para ver o que tinha. E ela do sítio onde estava, pressentiu aquilo que eu tinha dentro de mim. Senti-me cego mas sobretudo senti-me transparente. Eu, o homem mistério. Indecifrável, incompreensível para todos até para ele próprio, ser transparente. Habituado a ser invisível até estou mas transparente não. Nunca ninguém tinha chegado tão fundo dentro de mim, não desta forma, imediatamente. Mas faz sentido, porque nunca tinha sentido uma ligação tão grande por alguém e vice-versa. Com ela, mesmo que queira, as máscaras caem todas. Seriam motivo para fugir a sete pés, para ficar preocupado com aquilo que ela possa ver. Sempre prezei a sinceridade mas nunca fui completamente honesto. Com a Marta... sinto-me nu, mas quero ficar assim. Não me importo de ficar assim na frente dela. Acho que regredi ao estado de Adão antes de morder a maçã. É assustador este estado de sinceridade e pureza, mas não abdico dele. Não por medo. Se cheguei aqui por me deixar ir, não é agora que vou entrar em pânico.

Sem comentários:

Enviar um comentário